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26 de out. de 2007

Ossário: repressão e intervenção


Faz muito tempo que a paisagem urbana das cidades de todo o mundo são suporte para diferentes tipos de comunicação visual. Vemos em todos os cantos desde elaborados outdoors de grandes agências de publicidade até simples cartazes caseiros, passando por toda a gama de pichações e grafites. Nesse contexto, muitos artistas fazem do grafite e outras intervenções na paisagem urbana sua forma de fazer arte.

Qualquer arte que intervém, que incomoda, nem sempre é bem aceita, e a repressão é então chamada à ação. É um clichê falar da repressão policial aos grafiteiros, e a discussão sobre a validade ou não dessa repressão em especial não cabe aqui. O interessante é perceber o funcionamento da repressão aos elementos perturbadores, mesmo quando a intervenção em questão não cabe dentro das justificativas e criminalizações usuais.

Reverse graffiti

Um bom estudo de caso é a obra de reverse graffiti
(link em inglês) Ossário do brasileiro Alexandre Orion. Durante noites de trabalho a fio, ele removeu fuligem das paredes de um túnel em São Paulo, formando o desenho de dezenas de caveiras. Limpando seletivamente, criou uma imagem de impacto na paisagem urbana, denunciando a poluição ambeintal da grande cidade.

Segundo o artista, era abordado pela polícia várias vezes a cada noite de trabalho, confundido com grafiteiros. Esses encontros não eram lá muito amistosos, mas Alexandre conseguiu continuar com sua obra após explicar repetidas vezes que estava limpando, e não "sujando", propriedade pública, o que não constitui crime e, logo, não deveria ser reprimido. Assim, a perturbadora fileira de caveiras ganhou forma e número, apesar das várias visitas da polícia e do departamento de trânsito da cidade de São Paulo. Segundo o relato do artista, após perceberem o que ele estava fazendo, alguns policiais até apoiaram sua obra.

O fim de Ossário

A obra foi realizada durante duas semanas, começando em 13 de julho de 2006, no túnel que liga a Av. Europa e a Cidade Jardim. Após duas semanas de incessante trabalho noturno, Ossário tinha 160 metros de extensão. Sua denúncia da mortífera poluição urbana ganhava contornos cada vez mais provocativos aos olhos das autoridades. Finalmente, o túnel foi limpado pela prefeitura, mas apenas onde estava a intervenção, o restante permanecendo sujo. A limpeza da prefeitura foi claramente um gesto de censura, apagando a intervenção e deixando o túnel ainda sujo, como deve ser. Quase uma reverse censura.

Insistente, em 13 de agosto de 2006, Alexandre continuou a remover fuligem e desenhar caveiras, já que ainda tinha sua matéria prima à disposição. No entanto, assim que a obra alcançou 120 metros de extensão, uma equipe conjunta da Polícia Militar e da Prefeitura veio e limpou todo o túnel. Para não correr novos riscos, foram limpos todos os outros túneis da cidade.

Para terminar, fica aqui o vídeo disponibilizado pelo artista em seu site.



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Enric "Grama" Llagostera

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25 de set. de 2007

Mano Brown no Roda viva?

"Cuba deixou de tentar ser Nova Iorque para ser, pelo menos, Cuba.
O Brasil quer ser Nova Iorque."
Mano Brown, Roda viva.

São raros os momentos em que as duas esferas do Brasil entram em uma conversa civilizada dentro de um espaço midiático tradicional. O programa Roda viva, da TV Cultura é um desses espaços, e dos bem reconhecidos. Nessa semana, o entrevistado foi Mano Brown, dos Racionais MC, que dispensa apresentações. Foi um programa interessante, tanto pelas ações dos entrevistadores quanto pelo entrevistado.

Criticidade

Mano Brown é uma voz crítica, antes de tudo. Crítico no sentido de conexão total com a sua realidade objetiva, na negação de tudo que poderia nublar sua visão sobre o seu entorno. Ele enxerga a sua história e as outras histórias ao seu redor a partir de seu próprio ponto de vista, dando peso e importância para elas, ao mesmo tempo em que é consciente de como é relativa a posição de onde ele enxerga. Ele é ele e a realidade é a realidade e ele carrega sempre em sua fala as marcas dessa realidade como ela é entendida e vivida por ele, Mano Brown.

Penso que não é razoável eu tentar aqui resumir as idéias faladas por ele na entrevista, porque elas com certeza perderiam muito da claridade e das distinções sutis que ele coloca. Creio que basta dizer que, ao meu ver, ele tem uma postura ferozmente radical sobre a sociedade brasileira. Radical no sentido primordial, de raíz, de encarar os fundamentos de tudo e de pensar na realidade objetiva (essa é a palavra-chave) das coisas, defendendo o princípio da "atitude", do ato, da ação, coletiva e voltada ao seu entorno. No contexto da radicalidade dessa posição, fica claro que seu falar tem que ser categórico, tem que recortar o mundo para poder agir sobre ele e também para entendê-lo. Mano Brown sabe que é necessário esclarecer as divisões fundamentais e estabelecer pontos básicos, de onde ele parte para a argumentação de suas posições.

Entrevistadores

Ficou claro também que a divisão entre os entrevistadores e o entrevistado não existia apenas como a divisão de papéis dentro do programa. Ali estavam presentes e marcadas no mínimo duas posições diferentes e conflitantes quanto à realidade nacional. Mano Brown fala de seu entorno, da periferia, da auto-organização das favelas, do caráter opressor das leis do país, do desconhecimento do resto da sociedade sobre a situação do pobre e do morador da favela, da diferença cultural entre o branco e o negro. Enquanto isso, os entrevistadores insistiram em perguntas sobre suas posições individuais, íntimas, quase emotivas; como diz Marilena Chauí, perguntar demais sobre o âmbito íntimo e familiar de uma pessoa diminui sua significância social e seu caráter de posição racional e é uma das rotinas mais comuns da grande mídia justamente por isso. O segundo bloco do Roda viva foi exatamente isso.

Em outros momentos, os entrevistadores tentaram armar arapucas sutis para que ele dissesse as polêmicas que queriam ouvir sobre o tráfico, sobre as drogas, armadilhas essas destinadas a dar munição a comentadores da grande mídia (vá ver o que o Reinaldo Azevedo escreveu sobre a entrevista) para acusar Mano Brown de infrator, de lulista, de fazer apologias. Penso que, como o próprio rapper falou, eles pegaram leve, afinal de contas, ele já está mais do que escolado para evitar armadilhas tão banais e ao mesmo tempo afirmar suas posições, sem fugir da responsabilidade e das possíveis polêmicas de dizer a verdade; esse modo de proceder dos entrevistadores revelou seu desconhecimento do entrevistado, além de seus medo e desprezo por ele, assim como a necessidade de servir ao establishment. Eles queriam alguma polêmica saindo dali, mas o rapper falou com tanta autoridade, fundamentada, ainda que rústica e simples, que qualquer um aberto a realmente ouvir o que ele estava dizendo entenderia a real natureza daquilo e não se perderia em tentativas de achar provas para algum tipo de condenação.

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Enric "Grama" Llagostera

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20 de set. de 2007

Redução da pobreza? Eu que fiz!

ou Como se fala de redução de pobreza?

Essa é uma boa pergunta a se fazer no atual momento, tendo em vista os resultados do estudo “Miséria, Desigualdade e Políticas de Renda: o Real do Lula”, realizado pela FGV. Antes de continuar, favor reparar melhor no título pouco parcial do estudo que, ao associar a diminuição da desigualdade social durante o governo Lula com o plano Real de FHC, deixa claro que a instituição está longe de fazer numerologia chapa-branca para o atual presidente.


De acordo com os dados desse estudo, o número de miseráveis no Brasil (pessoas que vivem com menos de 125 reais por mês) diminuiu significativamente nos últimos anos. Só de 2005 para 2006, quase 6 milhões de pessoas saíram debaixo da linha da pobreza absoluta. "Ó, somos um país civilizado agora..." Não, não é isso que estou falando: em números absolutos, a redução foi de 42.033.587 pessoas em 2005 para 36.153.687 em 2006. É claro que isso é um grande avanço, um avanço fundamental, mas está muitíssimo longe de ser suficiente. A parcela mais invisível, destruída e brutalizada de nossa população está melhorando suas condições de vida em ritmo acelerado e recorde e isso é algo importante demais para passar despercebido, mesmo para a mídia que os delega à invisibilidade e à inexistência.

Não me interessa discutir exatamente os dados estatísticos desse estudo (para quem quiser mais informações sobre o mesmo, visite esse artigo da Carta Maior). O que penso ser interessante é o relativo silêncio da grande mídia e seu peculiar modo de noticiar. Como não podia deixar de ser, o grande jonalão que acompanho, a Folha, lançou matérias sobre o assunto, mas não pôde, em nenhuma delas (matéria 1 e matéria 2 ), deixar de dar boa parte dos méritos do atual avanço contra a pobreza para o ex-presidente FHC. Além disso, não foi citada a autoria do estudo como sendo realizado por um centro de pesquisas ligado à FGV. Da maneira que está escrito nas matérias, parece que esse centro existe autonomamente e sem filiação nenhuma, o que deixa no ar uma possível orientação chapa-branca, além de tirar crédito e autoridade sobre os resultados.

É impressionante que uma notícia desse peso (6 milhões de pessoas!) seja tratada como uma matéria menor, com menos linhas que um resumo de jogo entre Cruzeiro e Atlético Mineiro (jogaço). Politicamente, isso demonstra, sem rodeios, o desprezo desses grandes meios pelos assuntos que realmente afetam a massa do povo brasileiro, além do total compromentimento desses meios com a alienação do povo quanto à sua própria condição. Também é notável a vontade de manter o capital político de grupos da oposição ao se transferir o mérito principal para o governo anterior, do PSDB. Como pode ser que a redução da pobreza pode ser comparada ao plano Real? Qual é a natureza de cada uma dessas medidas políticas? Penso que uma é completamente diferente da outra em natureza, alcance e objetivo e a mera comparação dos dois já representa uma tentativa de distorcer a natureza de um para render dividendos ao outro.

Ah! E pesquisas de popularidade no Ibope são muito mais importantes que miseráveis, não?


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Enric "Grama" Llagostera

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31 de ago. de 2007

Ingenuidade perigosa


Depois da entrevista de Alberto Carlos Almeida, autor do livro "A cabeça do brasileiro", no programa Roda Viva (27/08/07), foi difícil acalmar a cabeça o suficiente para conseguir dormir, tamanha a inquietação que aquilo me causou. O sociólogo apresentou, ao meu ver, um festival de afirmações reacionárias, contraditórias e que são, na maior parte, resultado de raciocínios ilógicos e distanciados da realidade. E os entrevistadores, sem exceção, não conseguiram expor as contradições do entrevistado, apesar de alguns terem mostrado claramente que as perceberam.

Não quero com esse texto comentar apenas a entrevista ou as afirmações do entrevistado. A repercussão do programa no blog de Reinaldo Azevedo me interessou também e penso que comentá-la serve como porta de entrada para criticar o que encontro de errado nas posições de ambos.

No blog do colunista da revista Veja, encontrei um post sobre a entrevista e depois mais outro.
"Com base em dados empíricos, colhidos numa pesquisa, ele [Alberto Carlos] descobriu que a educação torna, na média, as pessoas menos tolerantes com os desmandos e mais tolerantes com a diferença; menos tolerantes com as incompetências do estado e do governo; mais tolerantes com a individualidade — sua e alheia."
Dessa maneira o colunista resume as teses do livro de Alberto, apoiado no resumo feito pela revista Veja, comentado pelo Douglas em outro post do Parou Parou. A meu ver, existem muitas posições políticas entremeadas nesse resumo que, pelo que vi na entrevista, estão realmente presentes no discurso do sociólogo. Quanto ao resumo em si, um ponto específico dele a atentar é a marca de autoridade que confere ao 'colhido numa pesquisa', que exclui completamente os questionamentos sobre os objetivos da mesma ou os métodos utilizados. Sabe-se que em pesquisas de cunho estatístico seus resultados só podem ser interpretados corretamente se esses elementos são evidenciados e coerentes. Sobre esse assunto, ver post sobre a pesquisa da Folha, também do Douglas.

É realmente interessante notar como Reinaldo associa, em seu post, ética e tolerância com ética relativa à corrupção no Estado e tolerância à individualidade, para só então chamar esses valores de democráticos e dizer que a elite escolarizada os têm em maior conta. Claro que ética e tolerância são valores democráticos, isso é algo óbvio, e que uma escolarização de qualidade, crítica, pode estimulá-los, mas dizer que a elite brasileira tem esses valores porque é mais escolarizada é um silogismo que não se verifica na realidade. Escolarização sem criticidade só gera ingênuos mais esclarecidos, passíveis de conceber a realidade nacional através de esquemas descolados da realidade objetiva da sociedade, esquemas alienados da realidade objetiva e de seu obrigatório condicionamento histórico e social. Para mais informações, ler Álvaro Vieira Pinto! Vide o longo histórico de políticos da elite, escolarizados, corruptos ou intolerantes. A desculpa dada no Roda Viva por Alberto Carlos Almeida de que seu estudo representa uma média, dentro da qual existem extremos e que esses extremos englobariam desvios como esses casos de corrupção ou violência intolerante da elite, é claramente parcial e forçado. Por que essa mesma lógica do desvio estatístico não pode ser aplicada aos extremos que ocorrem na não-elite, no povo?

Azevedo parte então para uma crítica da atuação do professor da USP Franciso Alambert no Roda Viva, na minha opinião um tanto quanto infeliz, pois não conseguiu apontar de maneira articulada suas objeções ao entrevistado. Após tomar algumas medidas retóricas para desqualificar qualquer crítica vinda de Alambert, o colunista-blogueiro afirma o seguinte:
"Ah, acontece que a pesquisa mexe com duas taras das nossas esquerdas: 1) as elites (palavra que nem está no livro) brasileiras são especialmente malvadas, perversas mesmo; 2) o povo é dono de um saber que vai se formando na luta: o saber do oprimido."
Eu me considero de esquerda, sou brasileiro e não tenho nenhuma tara por nenhum desses dois pontos. Primeiro, porque para para mim a elite não é especialmente malvada ou perversa, pois esses não são os termos para definir o que considero negativo em sua natureza. Ao defender essa elite brasileira como vanguarda moderna, esclarecida, passamos a acreditar em uma aristocracia esclarecida que deve guiar o país ao seu futuro de glória e harmonia, sendo que na verdade essa elite é fruto de uma história de dominação e exploração que não pode ser ignorada. Supor que todos podem se aproximar da elite (a tese de que escolarização para todos transformaria o Brasil em uma Suécia em 2025) ignora o ponto essencial da existência dela: a exploração da capacidade produtiva dos que não a compõem. A elite é, por definição, restrita e minoria. A elite brasileira, ao acreditar em um progresso significativo da sociedade sem rupturas e que, sem a retirada de qualquer privilégio, aproxima o outro de suas condições de vida é possível, demonstra sua ingenuidade e a total ignorância da realidade obejtiva do funcionamento da sociedade. Não é apenas por valores morais que uma sociedade se transforma: isso é uma visão idealista e, repito, ingênua.

Em um segundo momento, Reinaldo Azevedo ataca uma visão que ele descontextualiza e estupidifica. A tese de que o povo tem um saber formado pela vivência, saber esse inacessível para a elite, que não o compreende e o ignora, dando a seus detentores a pecha de ignorantes, está longe de ser uma 'tara de esquerda'. Azevedo simplesmente omite o fato de o ser humano ser essencialmente histórico e que a história não existe apenas nos livros de escola. O ser humano consciente de seu entorno e, por extensão, crítico, existe independente de sua escolaridade ou classe social. Criticidade é ter consciência da realidade e de seu próprio condicionamento ao apreender essa realidade objetiva. A história e o saber acumulado pelo viver a história acrescentam ao homem, isso é inegável e é uma das teses de um dos maiores intelectuais brasileiros, Paulo Freire. Não é colocar o 'povo' em um pedestal; esse é um saber como os outros, que não pode ser ignorado ou idealizado e, sim, criticado em suas limitações e possibilidades.

Um outro ponto que me inquietou é como o progresso nacional é concebido por ambos, Azevedo e Alberto Carlos Almeida, como a aplicação exata dos preceitos do neoliberalismo. Para eles, estatizante é necessariamente sinônimo de arcaico e liberal, de democrático e tolerante, sem que quaisquer outras alternativas possam ser consideradas. Parece que no plano da realidade econômica nacional o nosso progresso é mantermos tudo privado e, em nossa plataforma humana, sermos morais e tolerantes. Fica a pergunta se esses são realmente os critérios para definir uma sociedade melhor.

Penso que esse discurso todo apenas serve a uma coisa: autorizar a elite a seguir julgando como bem entender o futuro da nação, pois a participação do povo ignorante só poderia fazer destruir os altos valores morais da modernidade.

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Enric "Grama"

ps. Depois escrevo sobre o que foi dito sobre escravidão nesse programa. Assustador.

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27 de jun. de 2007

Artigo do professor Plinio de Arruda Sampaio Jr. (IE/UNICAMP)

Publicado originalmente na revista eletrônica Correio da Cidadania.

Estudantes lutam em defesa da universidade pública

Escrito por Plínio de Arruda Sampaio Jr.
15-Jun-2007


A ocupação da reitoria da USP em repúdio ao ataque do governo de São Paulo à autonomia universitária e contra a progressiva degradação da qualidade do ensino surpreendeu pela ousadia e determinação dos estudantes que a lideraram. Lançando mão da "desobediência civil" como arma de pressão política, a ocupação conseguiu em poucos dias o que parecia impossível, depois de meses de tratativas e negociações infrutíferas.

O efeito arrebatador da ocupação sobre a consciência cívica da pacata comunidade universitária levou o governo estadual a recuar em suas intenções intervencionistas e forçou a reitora a acatar boa parte das demandas dos estudantes. Não se conseguiu tudo que se pretendia. A necessária unidade entre pesquisa e ensino, ameaçada pelas pressões das “empresas” interessadas em usufruir os polpudos recursos da Fapesp, permanece no limbo. Mesmo assim, as vitórias do movimento estudantil foram consideráveis.

Muito além das demandas específicas que detonaram o movimento, a ocupação da USP pôs a nu a crise da universidade brasileira. Tal como está, a universidade brasileira desagrada a todos.

Para os neoliberais, a universidade pública é um "luxo caro" que precisa justificar sua existência. Para tanto propõem subordiná-la às exigências do mercado. Por essa razão, ela vem sendo submetida a repetidas rodadas de ajustes fiscais e reformas liberalizantes.

Para quem imagina que a universidade pública é um patrimônio estratégico do povo brasileiro, sua capacidade de produzir conhecimento para o Brasil deve ser resgatada. Para tanto, ela precisa desesperadamente de recursos para sobreviver e, mais importante, carece de um projeto nacional que lhe dê sentido.

Ao colocar na agenda política nacional a defesa da Universidade Pública e a democratização de suas estruturas de poder, a ocupação da USP ganhou uma dimensão que extrapolou suas intenções iniciais, transformando-se numa espécie de bastião da luta em defesa da universidade pública, uma luta que tem uma história que se confunde com a própria afirmação do Brasil como sociedade nacional.

Para reprimir o despertar do movimento estudantil, as forças da ordem procuram caracterizar a ocupação da reitoria como um fenômeno artificial, dirigido por partidos de esquerda que manipulam a boa fé e a ingenuidade dos estudantes. É uma forma estúpida de ocultar a realidade.

Os estudantes que tomaram para si a responsabilidade que faltou a muitos são o produto de seu tempo: frustrados com o progressivo sucateamento das universidades públicas; indignados com o horizonte negativo que se lhes antepõe como futuro; profundamente descrentes na democracia do “mensalão” e das “navalhas”; desconfiados até mesmo em relação aos partidos de esquerda, que julgam conservadores e politiqueiros.

Goste-se ou não, o movimento é conduzido por estudantes generosos, dispostos ao sacrifício por uma causa coletiva, com muita coragem e pouca bagagem política, cansados da crise permanente da sociedade em que vivem e com muita pressa para resolver os graves problemas do Brasil. O forte eco de suas ações sobre o conjunto dos estudantes revela a grande efervescência e a enorme frustração latente nos universitários brasileiros.

Os estudantes que ocupam a reitoria da USP despertaram para a política. Logo aprenderão as duras lições da luta de classes numa sociedade intolerante com todo movimento que lança mão do conflito como forma legítima de conquista de direitos coletivos. Para os donos do poder, o conflito só é permitido, e com grande liberalidade, para a defesa do status quo.

É dever de todas as forças políticas comprometidas com a democracia evitar por todos os meios que os estudantes que se levantaram para defender a universidade pública sejam postos no pelourinho. Defender os estudantes que ocupam a reitoria da USP contra qualquer tipo de punição é defender a desobediência civil como forma legítima de luta quando todas as outras simplesmente não dão mais resultado.


Plínio de Arruda Sampaio Jr. é professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/UNICAMP).

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24 de jun. de 2007

arrtigo do professor Marco Aurelio Nogueira

Um artigo publicado no Estadão deste sábado por Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp, sobre a crise...


A universidade sempre foi um espaço de luta, debate e reflexão. Um lugar para se pensar o mundo, pesquisar, aprender e estudar, seja no sentido básico de acumular conhecimentos, produzir ciência e adquirir melhores estruturas reflexivas, seja no sentido de agir sobre a vida e revolucioná-la.

A articulação entre seus objetivos fundamentais - lutar por justiça e igualdade, fazer pesquisa, estudar - constitui a razão de ser da universidade, aquilo que a distingue como instituição. Quebrada a conexão, desfaz-se a magia.

O ideal de uma comunidade de professores e estudantes sempre figurou entre as grandes utopias universitárias. Uma universidade de qualidade, que desempenhe uma efetiva função pública, não é só uma instituição com bons docentes e boa estrutura física. Também existe como estado de espírito, cultura, disposição intelectual, procedimentos.

Mas o que é fácil de ser encontrado nas cartas de intenções e nos discursos de praxe nem sempre se traduz adequadamente em termos práticos. Não é porque se defende um ideal comunitário que uma comunidade passa a existir. Ela nunca está pronta; precisa ser construída e reconstruída dia após dia, num processo que não se encerra jamais. Além disto, nem toda comunidade é virtuosa. Há comunidades que se sustentam em mecanismos repressivos, verticalizados e unidimensionais, nas quais o consenso é imposto, em vez de nascer do entrechoque das opiniões e da livre movimentação das pessoas.

Ainda que estejam do mesmo lado e se devam afinar quanto às finalidades da universidade, docentes e estudantes nem sempre caminham juntos. Podem divergir em muitos pontos, até porque estão separados por abismos geracionais e também porque se relacionam de modo distinto com a instituição. Aquilo que é, para a maioria dos professores, causa profunda e permanente, para a imensa maioria dos estudantes é um meio de se projetar para outros ambientes e continuar a vida. Há muito combustível para que professores e alunos entrem em atrito.

O sucesso de uma “boa” comunidade repousa na capacidade de fazer com que os atritos sirvam para fortalecê-la, em vez de miná-la, coisa que só pode acontecer se os integrantes dispuserem de uma vida coletiva livre, aberta, dialógica. Sem isto as questões não são processadas democraticamente e as soluções deixam de refletir o interesse das maiorias.

A universidade democrática e de massas do século 21, especialmente nos países periféricos, tornou-se também um espaço de assistência e proteção, recursos com que se busca viabilizar o estudo dos menos privilegiados e dos que enfrentam maiores dificuldades para se manter ao longo dos cursos. Trata-se de uma generosa e necessária ampliação dos princípios universitários, sem o que a universidade se elitizaria de modo inadmissível. A assistência, porém, converteu-se rapidamente num fim em si mesmo. Passou a ser reivindicada por todos e convertida em “direito” de todos, não somente dos que dela efetivamente necessitam. Deste modo, tornou-se muitas vezes mais relevante que os próprios fins específicos da universidade. Chegou-se assim à versão atual, que enfatiza a concessão em cascata de benefícios e subsídios, aumentando o privilégio dos privilegiados.

O problema é que a universidade, hoje, não dispõe de consensos a respeito de como encaixar a “permanência estudantil” em seu dia-a-dia. Sabe que precisa lutar por isto, mas não sabe de que modo e com que idéias fazê-lo. A articulação entre pensamento e ação está falhando.

Não se luta mais por idéias, mas por “direitos”. O foco não é mais qualidade de ensino, bons professores e bons cursos, mas boas notas, diplomas, carreiras e prestígio. Na maioria das vezes se luta por coisas direcionadas para melhorar a posição relativa de certas pessoas, não o funcionamento institucional, muito menos a vida de todos, o ensino e a pesquisa.

Mas, ora, dirão, por que não lutar pelas duas coisas, idéias e direitos? Nada contra, seria mesmo o certo. Mas desde que não se jogue fora uma delas para dedicar energia total à outra. Na agenda acadêmica de hoje cabe tudo, sem qualquer hierarquia ou critério. A pauta está invertida, os fins sendo engolidos pelos meios.

A agitação estudantil atual, movida a “radicalismo” midiático sem alma, bem como os professores que a ela se nivelam ou nela pegam carona, agarra-se ao assistencialismo para disfarçar sua dramática falta de densidade e de representatividade. Segue um caminho quase suicida, no correr do qual vai destruindo precisamente aquilo - a universidade como espaço de idéias, a razão crítica - que poderia ser sua força e sua plataforma de lançamento para o futuro. Em vez de salvadora da universidade, atua como seu coveiro. Seu único oxigênio é a “desobediência”, não a “alternativa”. Não é, na verdade, um movimento, mas um espasmo caricato, sustentado por uma sensação de força e pela inércia das instituições. Na sua base, uma massa estudantil que verbaliza, sem falar, um mal-estar gritante. A “maioria silenciosa” de hoje não é passiva: é um grito de alerta, que denuncia a irrelevância das cúpulas estudantis e das rotinas institucionais - por que brigar para ter aulas se dá para estudar de outro modo? - e desnuda o desconforto de toda uma geração, perplexa diante de um mundo de excessos e carências abissais. Ela, no fundo, está sendo levada ao silêncio pelo autoritarismo agressivo daqueles que dizem falar em seu nome.

Esta agitação não tem legitimidade e não interage com os estudantes, e nisso, tragicamente, repousam as melhores esperanças de uma “normalização”. Mas a crise por que passam as universidades públicas brasileiras - e, dentro delas, especialmente as escolas de humanidades - não é uma ventania de primavera. Justamente por isso, precisa ser enfrentada de peito aberto, de modo que seus principais agentes possam ser desmascarados, combatidos e neutralizados.

Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp, é autor, entre outros, dos livros Em Defesa da Política (Senac, 2001) e Um Estado para a Sociedade Civil (Cortez, 2004) E-mail: m.a.nogueira@globo.com



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a universidade para Otto Maria Carpeaux

artigo do crítico literário Otto Maria Carpeaux onde dá sua visão sobre a origem e objetivos da universidade. clique aqui.

o artigo chama "A idéia da universidade e as idéias das classe médias" e está presente no livro ensaios reunidos.

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11 de jun. de 2007

Hoje na Folha de São Paulo

Universidade, lugar da razão
CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ e CARLOS VOGT

PÚBLICAS E gratuitas, as três universidades estaduais paulistas -USP, Unicamp e Unesp- apresentam indicadores comparáveis com os de boas instituições internacionais. Juntas respondem por 50% da ciência feita no Brasil. De 1989 a 2005, o número de alunos nas três universidades cresceu 72%, e a produção de artigos científicos mais do que quintuplicou.
A qualidade dessas instituições é conquista de seus professores, funcionários e alunos. E também do contribuinte paulista, que a elas destina 9,57% do ICMS. São Paulo apóia intensamente o ensino superior e a pesquisa. Na média brasileira, 35% do financiamento público à pesquisa vêm de fontes estaduais e 65% das fontes federais. Em São Paulo, 60% do apoio à pesquisa vêm dos cofres estaduais.
Esse esforço visa assegurar a transmissão e o avanço do conhecimento -base do progresso humano. Para isso, as universidades precisam de um ambiente propício ao desenvolvimento das idéias, sentido maior da autonomia universitária, consagrada na Constituição Federal. Imprescindível como a autonomia é a liberdade acadêmica, que exige um convívio respeitoso, tolerante com idéias divergentes e a confiança no poder do argumento. Na universidade, a disposição é nunca recorrer à violência para ganhar um debate, mas sim melhorar os argumentos, aprendendo cada vez mais. A universidade deve ser o lugar da razão. O clima instalado nas últimas semanas desafia essa racionalidade.
Professores têm sido coagidos por piquetes e ameaçados, dirigentes não podem exercer suas funções porque prédios são invadidos. Há quem afirme que o recurso à violência se justifica porque o governo estadual teria ameaçado a autonomia.
Tal não parece ser o caso. Em 14 de maio, os reitores das três universidades afirmaram em nota não verem nos decretos ameaça à autonomia. Por exemplo, o decreto que criou a Secretaria de Ensino Superior, de 1º de janeiro, diz explicitamente em seu artigo 2º: "As funções voltadas ao ensino superior serão exercidas em articulação e conjugação de esforços com as instituições envolvidas, observando-se sempre o respeito à autonomia universitária e às características de cada universidade" (grifo nosso).
Sobre isso nada foi declarado no debate por aqueles que insistiram em encontrar nos decretos um ataque à autonomia.
Mesmo assim, o governo estadual publicou um decreto declaratório elucidando as dúvidas a respeito da autonomia, atendendo a solicitação dos reitores e da Fapesp, para tornar patente o que já havia sido concluído antes.
Não resta incerteza quanto a esse assunto. Mesmo que houvesse ou que tenha havido em decorrência de eventuais equívocos, isso justificaria o recurso à violência na universidade? Não.
A universidade pública e gratuita é essencial para a sociedade. Merece o respeito daqueles de fora e, mais ainda, daqueles de dentro. Garantir esse respeito implica reverter a trajetória de degradação das relações pessoais e institucionais que vem sendo instalada, na qual o recurso à força se banaliza com piquetes, carros de som, invasão de prédios, ameaças a dirigentes, professores, alunos e funcionários que não apóiam as decisões de minorias. Nesse ambiente, a inteligência, o pensamento livre e o debate respeitoso são as primeiras vítimas.
Piquetes, bloqueios e invasões não são ações pacíficas. Ao impedir um professor de dar sua aula ou um aluno de assisti-la, ainda que não haja sangue ou socos, há violência de uma espécie terrível: a violência surda e totalitária contra o livre pensar e contra o livre-arbítrio.
Na universidade, instituição que a humanidade preservou como o lugar do debate livre de idéias, a coação e a violência corroem de forma irreversível os valores acadêmicos e a convivência cordial imprescindíveis à realização desse mandato que as sociedades, há quase dez séculos, nos vêm delegando. Cabe repetir: é para assegurar a transmissão das idéias e seu avanço -base do progresso humano- que o contribuinte paulista investe nas nossas boas universidades públicas e gratuitas. O recurso à violência por alguns poucos membros da comunidade acadêmica, em vez de defender a universidade, a afasta cada vez mais da sociedade.

CARLOS HENRIQUE DE BRITO CRUZ , 50, membro da Academia Brasileira de Ciências, é professor do Instituto de Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor-científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Foi reitor da Unicamp e presidente da Fapesp.
CARLOS VOGT , 64, lingüista e poeta, é coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e presidente da Fapesp. Foi reitor da Unicamp.

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1 de jun. de 2007

Artigo escrito por Caetano T.Biasi

Escola de Atenas - Rafael Sanzio

Irresponsabilidade e a coisa pública

escrito por Caetano Tola Biasi, aluno de Midialogia - IA/UNICAMP

Lendo as notícias de ontem e hoje logo cedo parece que há um consenso quanto à inabilidade política do governo Serra ao tratar das universidades públicas paulistas. A briga agora é se o "novo decreto" realmente muda algo, ou só reitera o que os anteriores diziam, como sugerem alguns. Independente do que for um governador não pode ficar tanto tempo sem se pronunciar frente a uma crise deste porte; é uma irresponsabilidade que abre brechas, mas obviamente não justifica, para atos autoritários por parte do movimento estudantil, como barricadas e agressões a professores.
Serra "jogou verde pra colher maduro", como diz a gíria, subestimando a capacidade intelectual da comunidade acadêmica. Ele "conseguiu" que diretores de todas as unidades de uma universidade como a UNICAMP se pronunciassem contrários à criação da Secretaria do Ensino Superior (criada a partir de um dos decretos). Tais diretores não são arruaceiros e baderneiros como parte de mídia (em especial a revista Veja) quis tratar os integrantes do movimento nas públicas paulistas; são sim a elite intelectual do país, realizam pesquisa de ponta, vivem o dia a dia administrativo de uma universidade gigantesca e viram a autonomia dessa ameaçada.
O que acontecerá agora eu não sei. Essa frase traz em si um comodismo talvez inaceitável, principalmente dentro de um movimento que lida com decisões diárias, mas é sincera. O "novo" decreto é demasiado recente para eu achar que é hora de sair da greve ou coisa do gênero, é necessário estudo sobre ele e ouvir opiniões mais bem fundamentadas do que a minha. Mas também não temo em dizer que foi uma conquista desse movimento fazer Serra, que habitualmente só ouve a si mesmo, se pronunciar. Porque o que realmente não sai da minha cabeça é que Serra é um centralizador, se acha o dono do mundo, quer controlar toda e qualquer verba que passe pelo cofre que ele comanda – Mas, caro governador, não! Esse cofre ai no Palácio dos Bandeirantes não é seu , é público; como UNICAMP, USP e UNESP não são Suas, nem do Estado, nem da Igreja, nem do Mercado: elas são Públicas.

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27 de mai. de 2007

artigo de Maria Sylvia Carvalho Franco

artigo publicado na Folha de São Paulo de hoje.

Entre quatro paredes

Conhecimento dirigido à imediatez prática tolhe as universidades e deixa pesquisadores sem escolha

MARIA SYLVIA CARVALHO FRANCO
ESPECIAL PARA A FOLHA

O conhecimento é assunto de Estado e não deve prestar-se a capciosas tentativas de privatização indigente. Intromissões do atual governo tentam jogar as universidades públicas na grande bacia das almas de transferência do que é estatal para o domínio particular: passo decisivo foi submetê-las a uma repartição gestora de todo o "sistema de ensino superior paulista".
Justifica-se tal ato repisando que as universidades públicas sempre estiveram submetidas a alguma secretaria.
A memória brasileira é curta, mas, aqui, curtas são as pernas da mentira. A USP tornou-se autarquia em l944, com dotação orçamentária global e "poder de decisão e distribuição dos recursos recebidos, mediante elaboração de orçamento próprio".
Nesse passo, o professor Miguel Reale, membro do Conselho Administrativo do Estado, convenceu-se de "que a autonomia seria ilusória se o reitor continuasse a despachar com o secretário de Educação" e apresentou emenda "em virtude da qual todas as funções daquele secretário, relativas ao ensino superior, passavam a ser exercidas pelo reitor da USP, disposição esta que, em um primeiro momento, se estendeu aos atos normativos das novas universidades criadas". Com decisão unânime, "o reitor adquiriu status de secretário de Estado, passando a despachar semanalmente com o chefe do Executivo paulista, praxe louvável que, se não me engano, só foi respeitada até o governo de Laudo Natel" ("Minhas Memórias da USP", disponível no site www.scielo.br).
Por muito tempo, assim, os reitores responderam diretamente ao governador. Por que o Cruesp [Conselho de Reitores das Universidades do Estado de São Paulo] não poderá fazê-lo?
O governo Serra desatina: usa meios burocráticos, ditos racionalizadores, para abolir uma função pública essencial à lógica e razão do Estado moderno: o monopólio do saber.
Mantido pela igreja, o dogma e a censura teológico-política foram rompidos, em secular e duro combate, pela crítica do conhecimento, reabrindo a dúvida e reinstaurando a cultura laica, de domínio público.
Nessa luta, firmou-se o lema de Francis Bacon: "Knowledge and power meet in one" [traduzido correntemente por "conhecimento é poder"]. Subjaz a esse vínculo uma das condições básicas ao trabalho científico: a capacidade de afrontar o dogmatismo e o estereótipo, mobilizando tradições de saber aliadas a descobertas inovadoras, mantendo o conhecimento à altura de seu tempo. Ciência-técnica-política são as suas vigas mestras.

Palavras proféticas
Bacon acata o saber ligado à prática, mas aponta, como barreira ao progresso do conhecimento, o descaso pelas ciências básicas, únicas capazes de nutrir a técnica, teses retomadas por Hobbes.
Hoje, quando as especializações se ampliam e o mercado invade a produção científica, com urgência de lucros, fragmentação da pesquisa e declínio da base acadêmica, o programa proposto por Bacon não poderia ser mais cortante.
Sua restauração do saber conjuga produção científica e poder público em instituições definidas por formas e conteúdos inerentes à atividade científica.
Desatento à pesquisa, o Estado, nem mesmo para suas próprias tarefas, reúne pessoas capazes: seu descaso gera "um deserto de homens". Palavras proféticas: hoje escândalos se sucedem na República ao passo que mal aparecem estadistas empenhados em áreas do saber.
O conhecimento dirigido à imediatez prática (utilidade social direta, subsídios a empresas, serviço ao mercado, adestramento empregatício etc.) tolhe as universidades, definindo linhas de investigação e critérios de "excelência", impondo limites de tempo e deixando os pesquisadores sem escolha: ou ajustam-se ou excluem-se.
No mundo regido pela ciência e pela técnica, dominado por centros hegemônicos, o trabalho da teoria, o uso prudente dos conhecimentos, a prática desvinculada da imediatez são os meios capazes de enfrentar a violência com que os interesses lucrativos e a cobiça política estilhaçam a sociedade e a cultura.
Nem chegamos a imaginar o sentido atual do maldito conceito de imperialismo. Investigações sociopsíquicas para fins bélicos, impulsionadas na Segunda Guerra, converteram-se em procedimentos além da ficção científica (como abordagens matemáticas e computacionais para simular processos biológicos complexos ou "próteses" -pequenos chips- para corrigir danos ou dirigir cérebros normais), em experimentos que ignoram o Código de Nuremberg [criado em 1947 pelo tribunal internacional encarregado de julgar os nazistas].
Trilhões de dólares são investidos pelo Pentágono, a Casa Branca e as agências de segurança na condução dessas pesquisas (ver J.D. Moreno, "Mind Wars").
O próprio Bacon poderia temê-las. Em sua utopia, discute quais invenções, experiências e descobertas devem ser publicadas ou escondidas, sob juras de segredo. Só algumas são reveladas ao Estado.
Sobre os critérios dessa escolha, nada é esclarecido, mas o lorde chanceler devia calcular o que dizia, partícipe que foi dos dois lados: do Estado repressor e da ciência em luta contra a censura.
Todo aquele poderio não se estriba apenas em riqueza material: um forte legado do saber renascentista, em especial seu viso puritano, foi transposto para a Nova Inglaterra e alimentado em Harvard, logo após a chegada dos peregrinos e, depois, em Yale.
Quase 400 anos de vida universitária independente, contra o obscurantismo na colônia portuguesa. O tanto que conseguimos, em menos de um século, não merece ser destruído.

MARIA SYLVIA CARVALHO FRANCO é professora titular de filosofia da USP e da Universidade Estadual de Campinas e autora de Homens Livres na Ordem Escravocrata (ed. Unesp).

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26 de mai. de 2007

Texto Marcelo Coelho

Marcelo Coelho comenta o artigo de Gianotti publicado na "Folha de São Paulo" no dia 24/5, e que colocamos aqui no blog também.

retirado de: http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/arch2007-05-20_2007-05-26.html#2007_05-24_16_54_56-10759959-0

"Giannotti e a greve

O filósofo José Arthur Giannotti publica hoje na “Folha” um artigo interessante sobre a greve na USP, sobre o qual eu tenho, entretanto, alguns reparos a fazer.

1) Há muito tempo eu não ouvia alguma reivindicação ou movimento serem desqualificados pelo seu suposto “caráter pequeno-burguês”. Nos tempos de Lênin e Stálin, onde todo intelectual filiado ao partido podia ser considerar “operário” ou “proletário”, a pecha até que funcionava. Conforme o dia, era possível dizer que a luta por liberdade de expressão nada mais significava que uma “ilusão pequeno-burguesa” e coisas do tipo. Dizer isso, hoje em dia, não é apenas arcaico: significa decidir a legitimidade de uma reivindicação não em termos de sua racionalidade própria, mas de sua “origem”. Como dizia Hannah Arendt, ai de quem, num sistema totalitário, pertencer à “raça errada” ou à “classe errada”.

2) Sobre os decretos, Giannotti dá um leve puxão de orelha no governo Serra: “por que não negociar uma nova redação dos decretos?” O leitor imagina que, numa greve em que os estudantes e professores se insurgem contra um decreto, e o governo insiste em não mexer nesse decreto, a intransigência esteja sendo atribuída ao governo. Logo em seguida, todavia, Giannotti volta suas armas para o lado oposto. Nenhuma nova versão do decreto foi apresentada, mas “a greve não termina porque foi absorvida pelos delírios de maio”.

3) Maio, pelo que eu sei, é o mês do dissídio dos professores. Não é nostalgia delirante que se façam mobilizações nessa época. Para Giannotti, tudo parece derivar de uma espécie de coincidência mística: “Nos últimos anos, a cada mês de maio, algumas [das categorias da universidade] entram em greve”. Que coisa!

4) Repete-se, por fim, o velho argumento de que, numa categoria com aproximadamente 5 mil professores, apenas 250 votaram greve. Realmente, esse tipo de queixa é incapaz de me comover. Que alunos de primeiro ano de uma faculdade sejam tímidos para se manifestar numa assembléia, eu entendo. Mas que professores de uma universidade se deixem “manobrar” pelo seu sindicato ou pela mesa diretora de uma assembléia, é para mim incompreensível. Se era absolutamente previsível a decisão de uma assembléia pequena a favor da greve, e se a grande maioria não foi à assembléia, é perfeitamente legítimo dizer que concordariam com a decisão. Se os professores contrários à greve estão convictos de que a greve prejudica a universidade, e estão dispostos a lutar pela instituição, sua omissão numa assembléia não se justifica."

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