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25 de nov. de 2007

Reforma universitária para quê?

Esse é exatamente o título de um post da Diplô Brasil que saiu no dia 21 de Novembro. No post, estão linkados dois artigos publicados pelo site em que dois pontos de vista são lançados sobre a questão da reforma universitária brasileira. O objetivo é abrir espaço para essa polêmica tão importante, e os dois artigos são escritos por pessoas bastante ligadas aos movimentos estudantis.

Ficam aqui os links para leitura, assim como a descrição que vem junta no post da Diplô. Em breve, um comentário mais elaborado sobre essa polêmica.

Ocupar a Universidade
O movimento de ocupações que emergiu nas instituições federais reivindica um legado que nunca deveria ter sido esquecido. Autonomia, democracia e liberdade são conceitos que ajudam na consciência de massas no Brasil, e fazem valer o princípio de universalidade do conhecimento (Por Vinicius Almeida, Allan Mesentier e Daniel Nunes)

A democratização inadiável
Lutar contra a reforma universitária e o REUNI é legítimo numa democracia. Mas que fique claro: trata-se de uma luta de poucos contra muitos, de incluídos contra excluídos, do status quo contra a transformação, do fetiche disciplinar contra a transcidiplinariedade. Enfim, da direita contra a esquerda (Por Bruno Cava)

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Enric "Grama" Llagostera

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26 de out. de 2007

Ossário: repressão e intervenção


Faz muito tempo que a paisagem urbana das cidades de todo o mundo são suporte para diferentes tipos de comunicação visual. Vemos em todos os cantos desde elaborados outdoors de grandes agências de publicidade até simples cartazes caseiros, passando por toda a gama de pichações e grafites. Nesse contexto, muitos artistas fazem do grafite e outras intervenções na paisagem urbana sua forma de fazer arte.

Qualquer arte que intervém, que incomoda, nem sempre é bem aceita, e a repressão é então chamada à ação. É um clichê falar da repressão policial aos grafiteiros, e a discussão sobre a validade ou não dessa repressão em especial não cabe aqui. O interessante é perceber o funcionamento da repressão aos elementos perturbadores, mesmo quando a intervenção em questão não cabe dentro das justificativas e criminalizações usuais.

Reverse graffiti

Um bom estudo de caso é a obra de reverse graffiti
(link em inglês) Ossário do brasileiro Alexandre Orion. Durante noites de trabalho a fio, ele removeu fuligem das paredes de um túnel em São Paulo, formando o desenho de dezenas de caveiras. Limpando seletivamente, criou uma imagem de impacto na paisagem urbana, denunciando a poluição ambeintal da grande cidade.

Segundo o artista, era abordado pela polícia várias vezes a cada noite de trabalho, confundido com grafiteiros. Esses encontros não eram lá muito amistosos, mas Alexandre conseguiu continuar com sua obra após explicar repetidas vezes que estava limpando, e não "sujando", propriedade pública, o que não constitui crime e, logo, não deveria ser reprimido. Assim, a perturbadora fileira de caveiras ganhou forma e número, apesar das várias visitas da polícia e do departamento de trânsito da cidade de São Paulo. Segundo o relato do artista, após perceberem o que ele estava fazendo, alguns policiais até apoiaram sua obra.

O fim de Ossário

A obra foi realizada durante duas semanas, começando em 13 de julho de 2006, no túnel que liga a Av. Europa e a Cidade Jardim. Após duas semanas de incessante trabalho noturno, Ossário tinha 160 metros de extensão. Sua denúncia da mortífera poluição urbana ganhava contornos cada vez mais provocativos aos olhos das autoridades. Finalmente, o túnel foi limpado pela prefeitura, mas apenas onde estava a intervenção, o restante permanecendo sujo. A limpeza da prefeitura foi claramente um gesto de censura, apagando a intervenção e deixando o túnel ainda sujo, como deve ser. Quase uma reverse censura.

Insistente, em 13 de agosto de 2006, Alexandre continuou a remover fuligem e desenhar caveiras, já que ainda tinha sua matéria prima à disposição. No entanto, assim que a obra alcançou 120 metros de extensão, uma equipe conjunta da Polícia Militar e da Prefeitura veio e limpou todo o túnel. Para não correr novos riscos, foram limpos todos os outros túneis da cidade.

Para terminar, fica aqui o vídeo disponibilizado pelo artista em seu site.



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Enric "Grama" Llagostera

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15 de out. de 2007

Deus vetado na escola

Lembram-se desse post do Caetano sobre o projeto de lei estadual da dep. Maria Lúcia Amary, líder do PSDB na Assembléia? Aquele sobre Deus na Escola, com conteúdos que variavam de "Eu imagem e semelhança de Deus" a "Eu no mundo criado por Deus", além de "Eu e meu corpo"?


Então... Ele foi vetado pelo gov. José Serra, também do PSDB. Sua justificativa, segundo essa matéria da Folha, foi a de que "
a decisão de incluir religião como disciplina extracurricular cabe às próprias escolas e não pode ser imposta pelo Executivo ou Legislativo". Uma justificativa um tanto quanto burocrática e sem sentido que se nega a sequer chegar perto do cerne da questão: a complexidade e o erro de se propor o ensino religioso obrigatório (ainda que supostamente ecumênico) dentro do contexto de um estado laico. Além de jogar essa discussão pra cada escola especificamente, o que também é um absurdo quando falamos das escolas públicas.

Agora, o veto do governador volta para a Assembléia Legislativa, onde pode ser derrubado pelo plenário em caso de maioria absoluta. Pode ser que a história desse projeto de lei ainda não tenha acabado, lembrando que, para que ele tenha sido apresentado à sanção do governador, ele foi aprovado na ALESP.

Ah! E só para salientar: ainda de acordo com a mesma matéria da Folha, o governador utilizou a mesma justificativa para barrar uma disciplina sobre meio ambiente e ecologia que seria ministrada nas 3ª e 4ª séries do ensino fundamental. Realmente não entendi como que ecologia e religião podem ser vetadas pelo mesmo critério, já que a ênfase à ecologia nas escolas, se já aprovada na Assembléia e se não fere os princípios fundamentais do estado laico de direito, não teria porque não ser estabelecida, "imposta", por um projeto de lei.
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Enric "Grama" Llagostera

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12 de out. de 2007

Diplô e a blogosfera

Que tal colaborar com a Redação da seção brasileira da Le Monde Diplomatique ? É isso que esse post-telegrama aqui propõe que se proponha: novos links (quem sabe até o Parou Parou?), pautas, conteúdos, comentários, colaboradores...

Depois de ficar impressionado com a qualidade e pertinência das matérias da versão brasileira impressa da revista do Le Monde Diplomatique, encontrei andando pela net o blog da redação da Diplô Brasil, o que é algo bem interessante. Ainda embrionário, é interessante acompanhar as novas postagens que aparecem por lá. Assuntos interessantes, agendas e artigos com uma abordagem de "quadro geral", um pouco internacionalista, que creio ser importante de ser pensada. Inclusive para refletirmos se essa visão um pouco "Fórum Mundial Social" é a melhor a ser adotada ou não e pensar em seus pontos fortes e fracos.

Talvez o que mais me atrai a atenção nessa iniciativa é a transparência que propõe quanto ao processo de editoração de um periódico com as características da Le Monde Diplomatique, conhecida por um material bem-elaborado e de qualidade. O post inaugural é informativo e segue uma linha quase de carta de princípios, com algumas linhas gerais que espero que se realizem o mais rápido possível, como a criação de uma comunidade de blogs em português sob a chancela da revista.

Nessa linha de coisas interessantes nesse blog, gostaria de destacar o post de lançamento do Caderno Brasil, que mostra uma clareza de visão da revista quanto às potencialidades da blogosfera como meio de comunicação alternativa e a vontade de elaborar conteúdo de qualidade, incluindo nesse post a descrição do corpo de colaboradores, editores e colunistas.

Iniciativas como essa são encorajadoras, pois apontam para possibilidades de aproximar diferentes tipos de iniciativas baseadas nessa linha de blogosfera + rede + alternativa + movimentos sociais. Espero que essa iniciativa decole e que a gente arranje emprego em coisas como essa! Hehe!
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Enric "Grama" Llagostera

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25 de set. de 2007

Mano Brown no Roda viva?

"Cuba deixou de tentar ser Nova Iorque para ser, pelo menos, Cuba.
O Brasil quer ser Nova Iorque."
Mano Brown, Roda viva.

São raros os momentos em que as duas esferas do Brasil entram em uma conversa civilizada dentro de um espaço midiático tradicional. O programa Roda viva, da TV Cultura é um desses espaços, e dos bem reconhecidos. Nessa semana, o entrevistado foi Mano Brown, dos Racionais MC, que dispensa apresentações. Foi um programa interessante, tanto pelas ações dos entrevistadores quanto pelo entrevistado.

Criticidade

Mano Brown é uma voz crítica, antes de tudo. Crítico no sentido de conexão total com a sua realidade objetiva, na negação de tudo que poderia nublar sua visão sobre o seu entorno. Ele enxerga a sua história e as outras histórias ao seu redor a partir de seu próprio ponto de vista, dando peso e importância para elas, ao mesmo tempo em que é consciente de como é relativa a posição de onde ele enxerga. Ele é ele e a realidade é a realidade e ele carrega sempre em sua fala as marcas dessa realidade como ela é entendida e vivida por ele, Mano Brown.

Penso que não é razoável eu tentar aqui resumir as idéias faladas por ele na entrevista, porque elas com certeza perderiam muito da claridade e das distinções sutis que ele coloca. Creio que basta dizer que, ao meu ver, ele tem uma postura ferozmente radical sobre a sociedade brasileira. Radical no sentido primordial, de raíz, de encarar os fundamentos de tudo e de pensar na realidade objetiva (essa é a palavra-chave) das coisas, defendendo o princípio da "atitude", do ato, da ação, coletiva e voltada ao seu entorno. No contexto da radicalidade dessa posição, fica claro que seu falar tem que ser categórico, tem que recortar o mundo para poder agir sobre ele e também para entendê-lo. Mano Brown sabe que é necessário esclarecer as divisões fundamentais e estabelecer pontos básicos, de onde ele parte para a argumentação de suas posições.

Entrevistadores

Ficou claro também que a divisão entre os entrevistadores e o entrevistado não existia apenas como a divisão de papéis dentro do programa. Ali estavam presentes e marcadas no mínimo duas posições diferentes e conflitantes quanto à realidade nacional. Mano Brown fala de seu entorno, da periferia, da auto-organização das favelas, do caráter opressor das leis do país, do desconhecimento do resto da sociedade sobre a situação do pobre e do morador da favela, da diferença cultural entre o branco e o negro. Enquanto isso, os entrevistadores insistiram em perguntas sobre suas posições individuais, íntimas, quase emotivas; como diz Marilena Chauí, perguntar demais sobre o âmbito íntimo e familiar de uma pessoa diminui sua significância social e seu caráter de posição racional e é uma das rotinas mais comuns da grande mídia justamente por isso. O segundo bloco do Roda viva foi exatamente isso.

Em outros momentos, os entrevistadores tentaram armar arapucas sutis para que ele dissesse as polêmicas que queriam ouvir sobre o tráfico, sobre as drogas, armadilhas essas destinadas a dar munição a comentadores da grande mídia (vá ver o que o Reinaldo Azevedo escreveu sobre a entrevista) para acusar Mano Brown de infrator, de lulista, de fazer apologias. Penso que, como o próprio rapper falou, eles pegaram leve, afinal de contas, ele já está mais do que escolado para evitar armadilhas tão banais e ao mesmo tempo afirmar suas posições, sem fugir da responsabilidade e das possíveis polêmicas de dizer a verdade; esse modo de proceder dos entrevistadores revelou seu desconhecimento do entrevistado, além de seus medo e desprezo por ele, assim como a necessidade de servir ao establishment. Eles queriam alguma polêmica saindo dali, mas o rapper falou com tanta autoridade, fundamentada, ainda que rústica e simples, que qualquer um aberto a realmente ouvir o que ele estava dizendo entenderia a real natureza daquilo e não se perderia em tentativas de achar provas para algum tipo de condenação.

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Enric "Grama" Llagostera

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20 de set. de 2007

Redução da pobreza? Eu que fiz!

ou Como se fala de redução de pobreza?

Essa é uma boa pergunta a se fazer no atual momento, tendo em vista os resultados do estudo “Miséria, Desigualdade e Políticas de Renda: o Real do Lula”, realizado pela FGV. Antes de continuar, favor reparar melhor no título pouco parcial do estudo que, ao associar a diminuição da desigualdade social durante o governo Lula com o plano Real de FHC, deixa claro que a instituição está longe de fazer numerologia chapa-branca para o atual presidente.


De acordo com os dados desse estudo, o número de miseráveis no Brasil (pessoas que vivem com menos de 125 reais por mês) diminuiu significativamente nos últimos anos. Só de 2005 para 2006, quase 6 milhões de pessoas saíram debaixo da linha da pobreza absoluta. "Ó, somos um país civilizado agora..." Não, não é isso que estou falando: em números absolutos, a redução foi de 42.033.587 pessoas em 2005 para 36.153.687 em 2006. É claro que isso é um grande avanço, um avanço fundamental, mas está muitíssimo longe de ser suficiente. A parcela mais invisível, destruída e brutalizada de nossa população está melhorando suas condições de vida em ritmo acelerado e recorde e isso é algo importante demais para passar despercebido, mesmo para a mídia que os delega à invisibilidade e à inexistência.

Não me interessa discutir exatamente os dados estatísticos desse estudo (para quem quiser mais informações sobre o mesmo, visite esse artigo da Carta Maior). O que penso ser interessante é o relativo silêncio da grande mídia e seu peculiar modo de noticiar. Como não podia deixar de ser, o grande jonalão que acompanho, a Folha, lançou matérias sobre o assunto, mas não pôde, em nenhuma delas (matéria 1 e matéria 2 ), deixar de dar boa parte dos méritos do atual avanço contra a pobreza para o ex-presidente FHC. Além disso, não foi citada a autoria do estudo como sendo realizado por um centro de pesquisas ligado à FGV. Da maneira que está escrito nas matérias, parece que esse centro existe autonomamente e sem filiação nenhuma, o que deixa no ar uma possível orientação chapa-branca, além de tirar crédito e autoridade sobre os resultados.

É impressionante que uma notícia desse peso (6 milhões de pessoas!) seja tratada como uma matéria menor, com menos linhas que um resumo de jogo entre Cruzeiro e Atlético Mineiro (jogaço). Politicamente, isso demonstra, sem rodeios, o desprezo desses grandes meios pelos assuntos que realmente afetam a massa do povo brasileiro, além do total compromentimento desses meios com a alienação do povo quanto à sua própria condição. Também é notável a vontade de manter o capital político de grupos da oposição ao se transferir o mérito principal para o governo anterior, do PSDB. Como pode ser que a redução da pobreza pode ser comparada ao plano Real? Qual é a natureza de cada uma dessas medidas políticas? Penso que uma é completamente diferente da outra em natureza, alcance e objetivo e a mera comparação dos dois já representa uma tentativa de distorcer a natureza de um para render dividendos ao outro.

Ah! E pesquisas de popularidade no Ibope são muito mais importantes que miseráveis, não?


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Enric "Grama" Llagostera

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6 de set. de 2007

Tempestade em copo d'água


CartaCapital,

edição nº460, 5 de setembro de 2007 - Ano XIII
tiragem: 73.700 exemplares
preço: 7,98 reais
60 páginas, 5 páginas de anúncios (3 páginas de anúncios privados, 1 página de anúncios estatal na revista normal, 3 páginas de anúncio privado no encarte Retrato do Brasil(7 pág.) e 3 páginas de anúncios privados no mesmo encarte)

***

Na CartaCapital dessa semana, o tema da capa e de seu editorial, como não podia deixar de ser, é o processo contra os acusados do mensalão. A postura da cobertura da revista é coerente com sua posição política e, claro, evidencia novamente os postulados básicos dessa publicação.

Na matéria, assinada por Sergio Lirio, a grande tese defendida pela revista é a de que os acusados têm de ser julgados em um processo jurídico idôneo, em que os réus tenham direito a defesa. É repetidamente atacado o julgamento precoce pela imprensa, pois o mesmo é claramente dirigido pelo interesse dos grupos representados por esses meios, ou seja, a elite. Também é atacada a memória curta da Justiça, incapaz de partir à caça dos casos de caixa 2 do passado para limpá-los no molde da operação Mãos Limpas italiana. Para garantir o bom funcionamento da república, deve-se respeitar as instituições e os modos de funcionamento delas, o que implica na existência de um Judiciário neutro e, 'novidade', justo.

Em nenhum momento a matéria ou a publicação assume uma postura de defesa dos acusados como inocentes ou um apoio chapa-branca às determinações do governo. O ponto principal e constante de CartaCapital, e pelo qual considero a revista importante no panorama da mídia brasileira, é sua busca pelo bom funcionamento de um Estado mais justo, cumpridor de suas próprias regras e progressista.

No entanto...

A defesa do melhor funcionamento do Estado republicano brasileiro, nos moldes institucionais de hoje, é, na verdade, a defesa de um Estado que representa primordialmente os interesses de uma elite econômica da sociedade. Afinal, junto com todo Estado existe uma classe dominante, isso é inerente a ele, e junto com toda classe dominante, uma outra dominada. É importante evidenciar essa natureza do Estado e do governo e sua interessante posição, ultimamente, como alvo de ataques constantes, assim como a tentativa da criação de uma cultura anti-Estado, na qual 'estatizante' é uma palavra considerada sinônimo de arcaico, atrasado. Como que um instrumento de manutenção no poder da classe dominante, o Estado republicano, pode ser alvo de tantos ataques vindos dessa mesma classe dominante (vide Cansei)? É simples a resposta ao meu ver: a possibilidade, ainda que muito remota, do mesmo vir a servir também a alguns interesses de outros (sim, o ignorante povo).

Ao defender um Estado legalista, que cumpra realmente a Constituição estabelecida, a revista CartaCapital acaba, na visão da elite brasileira, a defender automaticamente o atual governo e a nunca-mencionada, talvez imaginada, extinção de alguns de seus privilégios de classe, provenientes do funcionamento atual do Estado. Em termos de uma mudança significativa da estrutura da sociedade brasileira, o fim desses privilégios de Estado seria o mínimo razoável para alguma melhora, mas, conhecendo nossos coronéis, é claro que isso já é demais.

Outros destaques da edição são o encarte Retrato do Brasil, cujo tema é a questão energética, e uma matéria sobre a expansão da banda larga no país, muito interessante.

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Enric "Grama" Llagostera

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31 de ago. de 2007

Ingenuidade perigosa


Depois da entrevista de Alberto Carlos Almeida, autor do livro "A cabeça do brasileiro", no programa Roda Viva (27/08/07), foi difícil acalmar a cabeça o suficiente para conseguir dormir, tamanha a inquietação que aquilo me causou. O sociólogo apresentou, ao meu ver, um festival de afirmações reacionárias, contraditórias e que são, na maior parte, resultado de raciocínios ilógicos e distanciados da realidade. E os entrevistadores, sem exceção, não conseguiram expor as contradições do entrevistado, apesar de alguns terem mostrado claramente que as perceberam.

Não quero com esse texto comentar apenas a entrevista ou as afirmações do entrevistado. A repercussão do programa no blog de Reinaldo Azevedo me interessou também e penso que comentá-la serve como porta de entrada para criticar o que encontro de errado nas posições de ambos.

No blog do colunista da revista Veja, encontrei um post sobre a entrevista e depois mais outro.
"Com base em dados empíricos, colhidos numa pesquisa, ele [Alberto Carlos] descobriu que a educação torna, na média, as pessoas menos tolerantes com os desmandos e mais tolerantes com a diferença; menos tolerantes com as incompetências do estado e do governo; mais tolerantes com a individualidade — sua e alheia."
Dessa maneira o colunista resume as teses do livro de Alberto, apoiado no resumo feito pela revista Veja, comentado pelo Douglas em outro post do Parou Parou. A meu ver, existem muitas posições políticas entremeadas nesse resumo que, pelo que vi na entrevista, estão realmente presentes no discurso do sociólogo. Quanto ao resumo em si, um ponto específico dele a atentar é a marca de autoridade que confere ao 'colhido numa pesquisa', que exclui completamente os questionamentos sobre os objetivos da mesma ou os métodos utilizados. Sabe-se que em pesquisas de cunho estatístico seus resultados só podem ser interpretados corretamente se esses elementos são evidenciados e coerentes. Sobre esse assunto, ver post sobre a pesquisa da Folha, também do Douglas.

É realmente interessante notar como Reinaldo associa, em seu post, ética e tolerância com ética relativa à corrupção no Estado e tolerância à individualidade, para só então chamar esses valores de democráticos e dizer que a elite escolarizada os têm em maior conta. Claro que ética e tolerância são valores democráticos, isso é algo óbvio, e que uma escolarização de qualidade, crítica, pode estimulá-los, mas dizer que a elite brasileira tem esses valores porque é mais escolarizada é um silogismo que não se verifica na realidade. Escolarização sem criticidade só gera ingênuos mais esclarecidos, passíveis de conceber a realidade nacional através de esquemas descolados da realidade objetiva da sociedade, esquemas alienados da realidade objetiva e de seu obrigatório condicionamento histórico e social. Para mais informações, ler Álvaro Vieira Pinto! Vide o longo histórico de políticos da elite, escolarizados, corruptos ou intolerantes. A desculpa dada no Roda Viva por Alberto Carlos Almeida de que seu estudo representa uma média, dentro da qual existem extremos e que esses extremos englobariam desvios como esses casos de corrupção ou violência intolerante da elite, é claramente parcial e forçado. Por que essa mesma lógica do desvio estatístico não pode ser aplicada aos extremos que ocorrem na não-elite, no povo?

Azevedo parte então para uma crítica da atuação do professor da USP Franciso Alambert no Roda Viva, na minha opinião um tanto quanto infeliz, pois não conseguiu apontar de maneira articulada suas objeções ao entrevistado. Após tomar algumas medidas retóricas para desqualificar qualquer crítica vinda de Alambert, o colunista-blogueiro afirma o seguinte:
"Ah, acontece que a pesquisa mexe com duas taras das nossas esquerdas: 1) as elites (palavra que nem está no livro) brasileiras são especialmente malvadas, perversas mesmo; 2) o povo é dono de um saber que vai se formando na luta: o saber do oprimido."
Eu me considero de esquerda, sou brasileiro e não tenho nenhuma tara por nenhum desses dois pontos. Primeiro, porque para para mim a elite não é especialmente malvada ou perversa, pois esses não são os termos para definir o que considero negativo em sua natureza. Ao defender essa elite brasileira como vanguarda moderna, esclarecida, passamos a acreditar em uma aristocracia esclarecida que deve guiar o país ao seu futuro de glória e harmonia, sendo que na verdade essa elite é fruto de uma história de dominação e exploração que não pode ser ignorada. Supor que todos podem se aproximar da elite (a tese de que escolarização para todos transformaria o Brasil em uma Suécia em 2025) ignora o ponto essencial da existência dela: a exploração da capacidade produtiva dos que não a compõem. A elite é, por definição, restrita e minoria. A elite brasileira, ao acreditar em um progresso significativo da sociedade sem rupturas e que, sem a retirada de qualquer privilégio, aproxima o outro de suas condições de vida é possível, demonstra sua ingenuidade e a total ignorância da realidade obejtiva do funcionamento da sociedade. Não é apenas por valores morais que uma sociedade se transforma: isso é uma visão idealista e, repito, ingênua.

Em um segundo momento, Reinaldo Azevedo ataca uma visão que ele descontextualiza e estupidifica. A tese de que o povo tem um saber formado pela vivência, saber esse inacessível para a elite, que não o compreende e o ignora, dando a seus detentores a pecha de ignorantes, está longe de ser uma 'tara de esquerda'. Azevedo simplesmente omite o fato de o ser humano ser essencialmente histórico e que a história não existe apenas nos livros de escola. O ser humano consciente de seu entorno e, por extensão, crítico, existe independente de sua escolaridade ou classe social. Criticidade é ter consciência da realidade e de seu próprio condicionamento ao apreender essa realidade objetiva. A história e o saber acumulado pelo viver a história acrescentam ao homem, isso é inegável e é uma das teses de um dos maiores intelectuais brasileiros, Paulo Freire. Não é colocar o 'povo' em um pedestal; esse é um saber como os outros, que não pode ser ignorado ou idealizado e, sim, criticado em suas limitações e possibilidades.

Um outro ponto que me inquietou é como o progresso nacional é concebido por ambos, Azevedo e Alberto Carlos Almeida, como a aplicação exata dos preceitos do neoliberalismo. Para eles, estatizante é necessariamente sinônimo de arcaico e liberal, de democrático e tolerante, sem que quaisquer outras alternativas possam ser consideradas. Parece que no plano da realidade econômica nacional o nosso progresso é mantermos tudo privado e, em nossa plataforma humana, sermos morais e tolerantes. Fica a pergunta se esses são realmente os critérios para definir uma sociedade melhor.

Penso que esse discurso todo apenas serve a uma coisa: autorizar a elite a seguir julgando como bem entender o futuro da nação, pois a participação do povo ignorante só poderia fazer destruir os altos valores morais da modernidade.

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Enric "Grama"

ps. Depois escrevo sobre o que foi dito sobre escravidão nesse programa. Assustador.

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28 de ago. de 2007

Review da semana: CartaCapital

CartaCapital,
edição nº459, 29 de agosto de 2007 - Ano XIII
tiragem: 73.900 exemplares
66 páginas, 5 páginas de anúncios (um anúncio de duas páginas da Petrobrás, 3 páginas de anúncios privados)

Capa: A rebelião da elite: De juízes a socialites, dos donos da mídia a seus sabujos, contribuições notávies para um festival de besteiras que envergonha o País

***

Nessa edição de CartaCapital, o tema principal foi o movimento Cansei. Desde a capa até as matérias que falavam sobre a situação do STF, passando, claro, pelo editorial de Mino Carta, a revolta da elite brasileira deu o tom dessa edição da revista, inclusive servindo de tema para a coluna de Sócrates, normalmente reservada apenas aos assuntos relativos à política do esporte.

Estratégia

A abordagem da revista é explicitamente direcionada e consciente de sua posição ideológica. O ataque à visão elitista do Cansei em relação à sociedade brasileira é construído apontando-se as repetidas incoerências, confusões e afirmações preconceituosas dos membros desse grupo, com um esmero na construção de diversos personagens e vozes dentro do texto. Assim, o Cansei é apresentado, em um panorama bastante vivo, como um grupo heterogêneo em sua composição, mas que não foge de suas contradições e erros fundantes. Em nenhum momento é censurada a fala desse movimento, mas é sempre questionada e atacada, sem o uso de recursos baixos.

Alguns pontos altos relativos às matérias diretamente relacionadas com o Cansei: o box com uma entrevista com Luciano Camargo, em que o cantor é apresentado como "voz dissonante no coro dos artistas", a narrativa de três fotografias da fã de Hebe Camargo sendo enxotada de cima do carro da apresentadora, o box da entrevista com Max Gonzaga, compositor da canção 'Classe média', sucesso de repercussão no Youtube. Vale a pena ler!

Diálogos

Outra coisa bastante interessante de se perceber nessa edição da CartaCapital (e que é quase uma constante da revista) é o diálogo/contraponto que faz com a Veja. Na Carta, outra revista é citada como fonte e as coisas que diz são comentadas, discutidas e atacadas sem qualquer tipo de constrangimento ou arrogância, o que não acontece na Veja. Ignorar a existência de interlocutores e apresentar-se como porta-voz da verdade são expedientes comuns em meios de comunicação ligados estreitamente com os interesse da ideologia dominante de uma sociedade, que, por definição, dissimula sua caracterítica de discurso a partir de um posicionamento (como todo discurso, está situado em um ponto de vista histórico e limitado).

Em um momento histórico em que múltiplas fontes de informação falam sobre um mesmo assunto dentro da mídia, a variedade de pontos de vista é necessária e bem-vinda, assim como a consciência e maturidade para assumir seus pontos de vista. É quase um truísmo dizer isso, mas não existe imparcialidade ou discurso da verdade absoluta. Ouviram, galerinha da Abril?

Outros destaques dessa edição: matéria sobre o livro (muito importante) lançado pelo governo sobre a memória das vítimas da repressão durante a ditadura e novidades na apuração de uma ampla série de casos, a matéria sobre as alterações na constituição da Venezuela e a discussão sobre a questão do STF.

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ass. Enric "Grama"

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27 de ago. de 2007

Imprensa marrom

Blog com comentários sobre jornalismo e imprensa no Brasil, escrito por Fernando Gouveia (ou Gravataí Merengue, como preferir). Ótima lista de links e textos muito interessantes, pela perspectiva de profissionalismo dele, sem virar uma coisa chata feito Observatório da Imprensa. Interessou? Clique aqui! O último post, sobre a entrevista de João Dória Jr. à Veja, está muito bom!

Abraços e até!
Enric "Grama"

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13 de jul. de 2007

Alguém me diz os porquês!

Essa é pra quem acompanhou a cerimônia de abertura do Pan Rio 2007:
(pra quem não viu: http://pan.uol.com.br/pan/2007/ultnot/2007/07/13/ult4343u1185.jhtm)

  • Quem vaiou o Presidente Lula?
  • Quem vaiou a delegação do Estados Unidos?
  • Quem que vaiou a delegação da Bolívia?
  • Quem que vaiou a delegação da Venezuela?
  • Por que o presidente não falou na cerimônia, de acordo com o cerimonial de mais de 52 anos de existência em que chefes-de-estado declaram os jogos abertos?
Afinal... Quem era esse público da cerimônia de abertura, que fica pra história como 'a massa brasileira que acolheu as delegações'? Essa torcida representa mesmo o Brasil? Ou quem pode pagar mais por uma entrada na cerimônia? Ou quem foi convidado?

Que fizeram de errado os/as atletas cujas delegações foram vaiadas para merecerem tamanho desrespeito? Belo exemplo de espírito olímpico demos...

Ah! aproveitando o gancho de 'olimpíada'... Pra quem é esse Pan 'de nível olímpico', como a rede Globo tanto insiste em dizer? Quem constrói estádios supervalorizados enquanto uma cidade rui aos pedaços, em uma guerra violenta? Ou será que eu deveria dizer um país?



Ass. Enric "Grama" Llagostera

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