6 de ago de 2007

cyberdeslocamento

eu não preciso mais ir ao banco. não preciso mais ir ao xerox, pegar os textos que eu estudo. não preciso (mas gosto de) visitar meus amigos para trocar idéias. mas tudo isso me parece fácil demais - e me chateia ver que nem pra todos é.
primeiro, digitar www.qualquercoisa.xxx , depois colocar usuário e senha, depois navegar e recuperar o arquivo que me interessa. parece difícil? pense em acordar, se arrumar, sair, pegar o xerox, pagar o xerox, voltar pra casa... se é tão difícil assim, lembrar uma página a mais, fique em casa e não busque nada.
eu tenho problemas pra ouvir o argumento. não acredito no argumento: só pode ser falta de interesse. "ir a" ("go to"), no ciberespaço, custa nada. se não quer ir, é porque não quer.
e tem de tudo na web, principalmente o que eu não quero.

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5 de ago de 2007

O ciclo se fecha


"a história brasileira tem demonstrado claramente a absoluta lealdade que encontramos dentro das Forças Armadas"Nelson Jobim, Ministro da Defesa, 1/08 em discurso a oficiais-generais recém promovidos.

Situação deplorável a do Brasil pós-ditadura. Governado por um sociólogo que pediu para esquecermos o que ele tinha escrito, depois por um metalúrgico que pede para esquecermos o que ele sempre disse, agora o Ministro da Defesa de um - Ministro da Justiça do outro - pede para esquecermos justamente o nosso passado, aquele da ditadura. O ciclo se fecha.

Acima, com seu slogan, a lealdade dos militares a qual o ministro se referia.

E abaixo com seu metódo:


Abraços, Caetano

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Que discurso é esse companheiro?

Que discurso você está reproduzindo? Será realmente seu?

Já há pesquisas lingüísticas suficientes para dar crédito à premissa de que o texto, qualquer texto, é um meio de reprodução de discursos. Resta saber quais discursos são esses.

As palavras e expressões utilizadas dão boas pistas.

Um exemplo clássico é a construção "MST invade fazenda" ou "MST ocupa fazenda". Esta tende a ser pró-sem-terra. A outra destaca no verbo "invadir" o conteúdo de ilegalidade da ação e, por conseqüência, do movimento.

As duas frases reproduzem termos diferentes, que explicitam discursos diferentes, com pontos de vistas diferentes.

Há algumas semanas, este blog questionou que discurso estamos reproduzindo neste momento no país, principalmente após o acidente com o avião da TAM em Congonhas, no dia 17 de julho, que matou 199 pessoas.

O assunto é delicado por si só, dada a dor que é a perda de qualquer vida, ainda mais de forma trágica. Isso tende a tornar mais emocionais discussões sobre o assunto, que tiram a necessária racionalidade da análise.

Há também a necessidade de um distanciamento histórico para permitir uma investigação das reais causas e conseqüências dos eventos que presenciamos.

Mas, mesmo sem o distanciamento histórico e a leitura nublada pela emocionalidade vivida pela sociedade, é possível enxergar que há algo no ar. E não é no ar dos aeroportos brasileiros.

Em terra firme, duas mil pessoas (números da Polícia Militar) fizeram nesse sábado um protesto em São Paulo contra a corrupção e contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Outras capitais repetiram o gesto.

Cidadãos irem à rua para dar voz a qualquer queixa é algo próprio do sistema democrático e é um recurso ainda pouco utilizado no Brasil (em comparação, a título de exemplo, com os tradicionais panelaços argentinos).

O protesto –e o direito de fazê-lo- tem de ser democraticamente respeitados, mesmo que, eventualmente, haja divergência de opiniões. Mas os motivos que levaram a esse protesto específico revelam algo vago e contraditório.

O protesto paulistano foi organizado por meio do Orkut. Embora o Brasil seja o líder mundial de usuários do site de relacionamentos, quantos brasileiros possuem o sistema? A minoria. A maioria nem sequer possui computador, vítima da rotulada exclusão digital.

Outro ponto da argumentação do protesto: os manifestantes vaiaram o governo federal, na figura do presidente, e gritaram frases como "Fora Lula".

Ao mesmo tempo, deixaram claro que não se tratava de uma manifestação que procurasse dar um "golpe" no presidente.

A mesma contradição argumentativa é vista no movimento do "Cansei", encabeçado por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e incentivado por empresários paulistanos, alguns ligados ao PSDB.

O verbo "cansei", na primeira pessoa do pretérito perfeito, é intencionalmente vago, posto que não explicita o seu objeto indireto. Cansei do quê?

Encaixa-se no complemento do verbo tudo o que for ruim, inclusive o subentendido lingüístico de um cansaço do atual presidente, eleito democraticamente há menos de um ano.

Reforça essa interpretação de contradição nos argumentos pesquisa do Datafolha noticiada neste domingo no jornal "Folha de S.Paulo".

O índice de aprovação ao presidente Lula está em 48%, mesmo número registrado em março, antes do acidente com o avião da TAM.

A pesquisa mostra também que a aprovação de Lula caiu sete pontos entre os mais ricos, com renda superior a R$ 3.500.

Entre os mais pobres, com até cinco salários-mínimos (R$ 1.750), a aprovação subiu dois pontos.

A história, sábia conselheira, sempre tem a melhor e mais precisa leitura dos fatos.

Mas do que se lê e se vê no calor dos acontecimentos, os fatos revelam que esses protestos são: democraticamente justificáveis, contraditórios e vagos nos argumentos centrais e feitos por uma minoria, dona de poder aquisitivo mais alto e de fácil acesso aos meios de comunicação.

Que discurso estamos reproduzindo?

O pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) Flávio Aguiar arrisca uma resposta em artigo publicado na edição deste domingo do jornal "O Estado de S. Paulo".

Ele dá uma outra interpretação ao termo "golpe". Não se trataria, no entender dele, de uma tomada de poder, mas de um golpe de desgaste de condições administrativas da atual gestão, promovido por quem perdeu a eleição presidencial de 2006.

A voz desse movimento –ou desse discurso- seria vista na e pela mídia. Nas palavras dele:

"No presente momento, as chamas da tragédia em Congonhas ainda queimavam, e já havia dizeres no ar e artigos acusando o governo de ´assassino´, interpretação que as primeiras investigações descartaram."

Segundo ele, é assim desde o fim do segundo governo do ex-presidente Getúlio Vargas.

Rodrigo Sá Motta, em "Jango e o Golpe de 64 na Caricatura" (editora Jorge Zahar), mostra um detalhado levantamento de como as charges veiculadas nos jornais da década de 1960 contribuíram para o brasileiro formar uma imagem negativa do ex-presidente João Goulart, deposto pelos militares em 1964.

Os desenhos dos jornais o reproduziam como um bobo. Motta diz que isso não teve necessariamente a ver com o golpe, mas contribuiu para a passividade dos brasileiros com a deposição de Jango. Afinal, "era um bobo".

A história se encarregou de desnudar o discurso por trás do desgaste de Goulart e as conseqüências disso para a vida democrática brasileira.

Pierre Bordieu, no livro "Sobre a Televisão" (Jorge Zahar), aborda o tema de outro ângulo. Ele postula duas premissas.

Primeira: a televisão, objeto da análise dele, é responsável pela criação da realidade dos acontecimentos. A TV é a principal fonte de informação na maioria dos países.

Segunda premissa: essa criação de realidade é permeada por discursos, que chegam enviesados à população.

Bordieu vê no mecanismo um risco à democracia e à saúde política de um país.

A história irá responder a tudo com mais precisão.

Mas não custa questionar que discurso estamos reproduzindo antes de emitirmos qualquer opinião -democraticamente soberana e respeitada, qualquer que seja ela- sobre os últimos acontecimentos.

Será que a opinião é realmente sua ou é o discurso de outrem camuflado na sua voz?

Novamente, a história dirá.

Paulo Ramos, in: http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/arch2007-08-01_2007-08-31.html#2007_08-05_10_02_50-10623622-25

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