23 de jul de 2007

Sobre muros e linhas

Hoje tomei contato com o trabalho de uma organização chamada Peace Players International. Basicamente o trabalho deles se dá com crianças em zona de conflito étnico. O que eles fazem? Oferecem clínicas, treinamentos, torneios de basquete com as crianças de ambos os lados. Usam o basquete como uma forma de encontro e troca de experiências em zonas onde até o próprio contato se dá de forma problemática.
Não sei se se lembram quando em 2001 protestantes agrediram verbalmente e fisicamente pais e crianças católicos que iam a um colégio em Belfast, Irlanda do Norte. Cena deprimente de crianças chorando e sendo alvos de cuspes de marmanjos trogloditas; na situação eram dois colégios, um católico e um protestante, que ficavam na mesma rua e que, após os conflitos, foram divididos por um enorme muro. Hoje, após a resistência de pais e etc, essa organização consegue trabalhar com as crianças que justamente foram vítimas desses ataques.
Muros são em si um símbolo de recusa à convivência, não se reconhece a existência do outro. Muitas vezes me parece que construir muros é como fechar os olhos. Nega-se o que acontece, é a conclusão conclusão de que é melhor que esses mundos não se encontrem mesmo. Lembro de um documentário de 2002, Carlo Giuliani: Ragazzo; Carlo Giuliani foi um jovem assassinado pela polícia italiana durante protestos contra uma reunião do G-8 em Gênova. Na ocasião a cidade italiana foi dividida por uma linha vermelha pela qual ninguém poderia passar; ela isolava o centro da cidade para reunião dos líderes. Carlo morreu justamente quando, em confronto com a polícia, um grupo de manifestantes tentava atravessar essa linha vermelha. A fala da mãe de Carlo é marcante no filme: até quando vamos viver com essas linha vermelhas no mundo, a linha que separa os ricos dos pobres. A mãe reconhece de cara o que representava aquela linha. O que é uma globalização que, como método, isola áreas?
Em 2005 estudantes paulistas foram impedidos (a pedidos do ex - governador Geraldo Alckmin -psdb- e do ex-presidente da assembléia Rodrigo Maia (DEM) de entrar na Assembléia Legislativa para acompanhar uma votação sobre verbas relativas ao ensino público. Barrados na porta da chamada "Casa do Povo". Na ocasião a linha era composta por algumas dezenas de policias da Tropa de Choque.
O quanto aquela linha de Gênova não pode estar relacionada a esse muro que separa a favela de Paraisópolis do riquíssimo bairro do Morumbi. Não há dúvidas sobre os muros construídos no Brasil e destruí-los me parece o único modo de evoluirmos. Propiciar às crianças dos dois lados do muro abaixo a oportunidade de nadarem juntas, conversarem, jogarem futebol, enfim, conviverem.
Abraços, Caetano.

foto de Tuca Vieira

A imagem que inicia o texto é de Norman Rockwell, mais sobre ele aqui.
E aqui uma reconstituição fotográfica do assassinato de Carlo Giuliani.


Um comentário:

Darlene disse...

Cara, adorei o texto! mto bom.
também gostei da escolha do Norman Rockwell para ilustra-lo. adoro ele.
Bejo!
Darsh