28 de ago de 2007

Review da semana: CartaCapital

CartaCapital,
edição nº459, 29 de agosto de 2007 - Ano XIII
tiragem: 73.900 exemplares
66 páginas, 5 páginas de anúncios (um anúncio de duas páginas da Petrobrás, 3 páginas de anúncios privados)

Capa: A rebelião da elite: De juízes a socialites, dos donos da mídia a seus sabujos, contribuições notávies para um festival de besteiras que envergonha o País

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Nessa edição de CartaCapital, o tema principal foi o movimento Cansei. Desde a capa até as matérias que falavam sobre a situação do STF, passando, claro, pelo editorial de Mino Carta, a revolta da elite brasileira deu o tom dessa edição da revista, inclusive servindo de tema para a coluna de Sócrates, normalmente reservada apenas aos assuntos relativos à política do esporte.

Estratégia

A abordagem da revista é explicitamente direcionada e consciente de sua posição ideológica. O ataque à visão elitista do Cansei em relação à sociedade brasileira é construído apontando-se as repetidas incoerências, confusões e afirmações preconceituosas dos membros desse grupo, com um esmero na construção de diversos personagens e vozes dentro do texto. Assim, o Cansei é apresentado, em um panorama bastante vivo, como um grupo heterogêneo em sua composição, mas que não foge de suas contradições e erros fundantes. Em nenhum momento é censurada a fala desse movimento, mas é sempre questionada e atacada, sem o uso de recursos baixos.

Alguns pontos altos relativos às matérias diretamente relacionadas com o Cansei: o box com uma entrevista com Luciano Camargo, em que o cantor é apresentado como "voz dissonante no coro dos artistas", a narrativa de três fotografias da fã de Hebe Camargo sendo enxotada de cima do carro da apresentadora, o box da entrevista com Max Gonzaga, compositor da canção 'Classe média', sucesso de repercussão no Youtube. Vale a pena ler!

Diálogos

Outra coisa bastante interessante de se perceber nessa edição da CartaCapital (e que é quase uma constante da revista) é o diálogo/contraponto que faz com a Veja. Na Carta, outra revista é citada como fonte e as coisas que diz são comentadas, discutidas e atacadas sem qualquer tipo de constrangimento ou arrogância, o que não acontece na Veja. Ignorar a existência de interlocutores e apresentar-se como porta-voz da verdade são expedientes comuns em meios de comunicação ligados estreitamente com os interesse da ideologia dominante de uma sociedade, que, por definição, dissimula sua caracterítica de discurso a partir de um posicionamento (como todo discurso, está situado em um ponto de vista histórico e limitado).

Em um momento histórico em que múltiplas fontes de informação falam sobre um mesmo assunto dentro da mídia, a variedade de pontos de vista é necessária e bem-vinda, assim como a consciência e maturidade para assumir seus pontos de vista. É quase um truísmo dizer isso, mas não existe imparcialidade ou discurso da verdade absoluta. Ouviram, galerinha da Abril?

Outros destaques dessa edição: matéria sobre o livro (muito importante) lançado pelo governo sobre a memória das vítimas da repressão durante a ditadura e novidades na apuração de uma ampla série de casos, a matéria sobre as alterações na constituição da Venezuela e a discussão sobre a questão do STF.

Opine!

ass. Enric "Grama"

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