31 de ago de 2007

Feridas abertas da ditadura

O jeito como a Brasil lida com seu passado é interessantíssimo, não rompendo com nada nossa história aparenta ser somente uma transferência de poder entre oligarquias. Não rompemos sequer com o império, não conquistamos a independência e o fato de alguns se mostrarem escandalisados com o lançamento, por parte do governo, do livro "Direito à Memória e à Verdade", que evidencia torturas e mortes causadas pelos militares, mostra que nem com a ditadura militar parece haver uma vontade de ruptura. A nossa democratização foi ridícula de modo que se contentou com um acordo de cúpula entre políticos à reivindicação popular por Diretas; seria muita radicalização a democracia direta vir diretamente povo? Mais do que uma ruptura, uma negação daquele modelo proposto pelos militares, era necessário a certeza de que seria apenas uma transferência (mais simbólica, do que real) de poderes. Brincamos de democracia.

Retomando. A negação a esse documento do governo e à abertura total dos documentos da ditadura militar é negar a memória. Querer relativizar os crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura é não estar disposto a se deparar com a história; é afirmar que aquilo já passou, que não vale a pena ser lembrado quando na verdade deve ser lembrado constantemente para ser rechaçado, criticado e condenado. Qual a possibilidade de construção de uma nação com um povo sem memória? Em um Estado que não escolhe qual modelo seguir (escolher é diferenciar, distinguir, falar "isso não quero, isso condeno") ? Ou dizemos que a ditadura foi um dos piores momentos da história brasileira - segundo Mino Carta, o pior momento ao lado da escravidão - e lidamos com a real dimensão desse fato ou seremos eternamente coniventes com ela.

Seguem links da repercussão do lançamento de "Direito à Memória e a Verdade" na imprensa gringa.
Huffington Post.
El Pais.
BBC.
Al Jazeera

Abraços, Caetano.

Um comentário:

Grama disse...

Ótimo post, Caetano.

Essa cicatriz da história da América latina não pode ser fechada, temos que mantê-la aberta, doendo e incomodando para que nada se perca e a justiça seja feita. O título do livro é auto-explicativo: "Direito à Memória e a Verdade".
Boa análise essa da história sem rupturas, muito pertinente e precisa.

Abraço!