12 de jul de 2007

Público e Privado; alhos e bugalhos


Retrato de uma nação esculhambada: é isso o que a presente crise liderada por Renan Calheiros e Joaquim Roriz expõe (diga-se de passagem não é a primeira vez que fica exposto). A relação sinistra entre o que deveria ser público e o que é privado torna-se norma. E ai somos administrados por quem? Pelas oligarquias de sempre, nada muda. Somos uma república fictícia uma vez que nossas instituições pouco significam, e sempre estão submetidas a poderes obscuros. É triste e alarmante; e isso não se dá só nos casos de corrupção evidente não, é uma promiscuidade institucional.

A Carta Capital desse semana trouxe uma matéria de capa analisando como é a vida de ex-diretores do Banco Central. A revista traz dados interessantes e infelizmente não está disponível on-line para passar a matéria por aqui. Ela defende a tese de que muitos dos que lá estão servem a interesses privados, são verdadeiros representantes de grandes grupos econômicos no BC. Henrique Meirelles, por exemplo, recebe uma aposentadoria anual de 750 mil dólares do Bank Boston. Nada contra enriquecer, mas pera lá né, que interesse ele representa. A quem sua política está servindo? Outro exemplo que é alarmante (não quero condenar, mas acho que coisas do tipo devem ser investigadas) Pésio Arida era professor da PUC-RJ, foi presidente do bc por 6 meses (janeiro a março de 95), e ao sair do BC tornou-se sócio de Daniel Dantas no Banco Opportunity. Novamente repito, nada contra subir na carreira, evoluir, óbvio que não, mas com as coisas públicas deve se ter mais clareza.

No Brasil a quarentena para funcionários públicos em áreas de conflito de interesse é de 4 meses. O que não é nada perto da quarentena de 1 a 2 anos nos EUA, 1 ano no Banco Central Europeu e 4 anos para o BC francês. Copio da Carta Capital 2 trechos onde o professor Fernando Cradim, economista da UFRJ, faz uma análise dessa relação dos dirigentes do bc: "Há um certo cinismo em tudo que envolve o Estado. A idéia ficou desmoralizada. Existe uma falência do espírito público.", e " Passa-se uma temporada no setor público como um sacrifício apenas para valorizar o passe".

Constatado isso aonde estamos? É fácil achar matérias hoje de confusão da coisa pública com a privada principalmente no que diz respeito a financiamento de campanha. É um problema enorme, muito fruto de como lidamos com essa democracia. Não são poucos os que consideram deputado bom aquele que traz verba para a região. Outra questão que deve ser posta em debate e analisada são essas leis de incentivo a cultura. Não seriam elas mais um retrato desse descaso com a coisa pública? Produz-se muita vezes pra ninguém ver, com dinheiro do contribuinte. Ou então aceita-se a situação ficando simplesmente como cordeirinho de departamentos de marketing de multinacionais ou aceitando caridade das estatais (quando elas não patrocinam, deliberadamente, propaganda de governos).

Não nego que o Estado tenha um papel importante no financiamento da arte, e sei que dentro dessas Leis de Incentivo surgiram e surgem coisas interessantíssimas e altamente viáveis. Mas a coisa deve ser repensada, analisada criticamente. No caso do cinema acho curioso porque têm-se gastado milhões mas ninguém nunca pensou em abrir salas populares com essa verba, com ingresso a R$ 3,00 passando os mais variados tipos de filmes. A prefeitura de Paulinia por exemplo tem um mega-projeto chamado "Paulinia Magia do Cinema" com o intuito de tornar Paulinia num polo de produção cinematográfica, entretanto procurando no google hoje não achei sequer uma sala de cinema na cidade*! Não, o interesse não é na cultura. É marketing político. É tratar arte com migalhas, e aceitamos, e exaltamos isso e (o pior) com dinheiro público.

Enfim, posso ter misturado alhos com bugalhos mas acho que essa coisas tem sim a ver. E cuidar da coisa pública é dever diário tendo sempre critérios quando a verba vem do Estado, justamente porque ela é pública, de todos.

Ainda tenho mil questões sobre o assunto, e poucas certezas. Talvez volte atrás no que falei, mas enfim.. é assim. Abraços, caetano.

*para ciência fui hoje tentar me matricular em um curso em parceria do "Paulinia Magia do Cinema" e o SENAC . Fico pensando se devo ou não fazer, se compactuo ou não com isso. Se fazer é compactuar ou não.

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